O apóstolo São Tiago - Evangelização da região

O apóstolo São Tiago - Evangelização da região

O início do cristianismo na península Ibérica e grande parte da Europa, foi devido à acção de um homem, apóstolo de Cristo, que esteve nesta região poucos anos depois da morte de Jesus Cristo. Foi graças a este impulso que o cristianismo cresceu nesta zona e em Garabandal. Séculos mais tarde, iniciava-se a reconquista cristã na região das Astúrias e da Cantábria, região onde se insere Garabandal.

 

 

 

Santiago, ou São Tiago, um dos doze apóstolos de Cristo e irmão do também apóstolo e evangelista João, tem uma das mais bonitas e frutuosas histórias de vida. Santiago é a razão de ser do “Caminho em Santiago”, um dos três caminhos cristãos, percorrido por centenas de milhares de pessoas de diversas partes do mundo todo ano, em peregrinação ao seu túmulo que fica na Catedral de Santiago de Compostela, na cidade do mesmo nome, na Galiza, Espanha. Essas pessoas percorrem o Caminho em nome da fé, em busca da paz interior e ao encontro de Deus.

 

Foi o mesmo Apóstolo Santiago que “ foi visto” em Garabandal no dia da sua festa (25 de Julho) do ano 1961. A sua manifestação realizou-se cavalgando pelo céu durante uns dez minutos por volta da meia-noite. Este acontecimento sobrenatural foi presenciado por várias pessoas que estavam naquele dia em Garabandal, entre eles o pároco da aldeia, D. Valentín Marichalar.

 

As melhores menções sobre Santiago encontram-se no livro Liber Sancti Jacobi “Codex Calistinus, que narra a vida e a obra de Santiago, composta de 5 livros e escrito no século XII, pelo clérigo francês Aymeric Picaud por solicitação do Papa Calisto II. No Livro 3, consta uma citação bastante interessante sobre suas qualidades:

 

“Despues de la Pasion de Nuestro Salvador y del gloriosísimo triunfo de su misma Resurección, y luego de su admirable Ascención, cuando subió hasta el trono de su Padre y del Espíritu Paráclito también; trás la efusion de las lenguas de fuego sobre los apósteles, los discípulos. El mismo había elegido, iluminados con los rayos de la sabiduria e inspirados por la gracia celestial, dieron a conocer con su predicacion El nombre de Cristo por todas partes, a los pueblos y naciones. Y ente el insigne número de aquéllos, el santo de admirable virtud, el bienaventurado por su vida, el maravilloso por su virtud, el esclarecido su ingenio, el brillante por su oratoria, fue Santiago, cuyo hermano Juan es conocido como evangelista y apóstol”.

 

O Santo

 

O Santo que dá nome e consequência ao Caminho de Santiago, nasceu Ia’aqob, cerca de 12 anos antes de Cristo. Filho do pescador Zebedeo e irmão mais velho de João, Tiago vivia com a família em Betsaida, próximo ao lago de Generasé, onde Jesus os encontrou em uma de suas pregações na região.

No ano 31, Jesus Cristo, andando ao longo do Mar da Galileia chamou os dois irmãos (Mateus 4:21), admitiu-os no grupo dos doze apóstolos e deu-lhes o nome de Boanerges que significa Filhos do Trovão (Marcos 3:17), por causa energia inesgotável de ambos, bem expressada no episódio em que Cristo chegou com os seus seguidores na terra dos samaritanos e estes lhe interditaram a entrada; Tiago e João, vendo neste facto uma afronta, perguntaram ao Senhor se queria que mandassem cair fogo do céu para consumir a cidade (Lucas 9:54), ao que Jesus respondeu “Vós não sabeis de que espíritos sois! O filho do homem não veio para perder, mas para salvar as almas" (Lucas 9:55-9:56).

 

Tiago foi chamado de “Maior” (Santiago el Mayor), para ser diferenciado de outro apóstolo homónimo, conhecido como Tiago o Menor, por ser mais novo. Gozava de especial confiança e relação com Jesus como um discípulo básico destacando-se com Pedro e João do resto do grupo e testemunhando os momentos importantes da vida de Jesus, como o da ressurreição da filha de Jairo (Lucas 8:51- 8:56) e o da transfiguração (Marcos 9:2).

 

Pouco tempo depois da morte de Cristo no ano 33, o Apóstolo foi enviado à região onde se localizavam os reinos que formam a actual Espanha, para pregar a doutrina cristã, sendo provavelmente o único apóstolo que foi pregar no ocidente. Tiago realizou um trabalho intenso na região, mas a palavra de Cristo não era aceita com facilidade, por causa das histórias e tradições arraigadas da população da região. Ele voltou a Jerusalém no ano 43, período em que a perseguição aos cristãos na Palestina se encontrava no auge e como era um dos pregadores mais influentes do cristianismo, foi aprisionado e morto por ordem de Herodes Agripa, rei dos judeus, tornando-se, desta forma, o primeiro apóstolo a verter sangue por Cristo. Enquanto era levado em direcção à execução, Santiago realiza dois milagres: a conversão e baptismo do seu guarda, um fariseu chamado Josías, e a cura de um paralítico.

 

Para evitar o culto dos seus seguidores, o seu corpo foi retalhado e as partes espalhadas por diversos sítios, para que não houvesse uma referência física do Santo e a lembrança se esvanecesse mais rapidamente entre os fiéis. Com a sua morte começava uma das sagas mais interessantes do catolicismo, em face das agruras que o mesmo enfrentou sem jamais negar sua fé e se abstrair dos seus ideais e, principalmente, por causa do imenso movimento cristão que impulsionou após a sua morte: a peregrinação a Santiago de Compostela, que reúne, a cada ano milhares de pessoas, de todos os tipos e religiões, em um movimento cristão admirável, com profundo apelo religioso.

 

 

O Caminho de peregrinação

 

O Caminho de Santiago começou a ser criado com a morte do Santo e começou a ser trilhado pelos primeiros peregrinos cerca de 800 anos depois da sua morte. A história do Caminho é fascinante e na verdade teve início quando Teodoro e Atanásio, seus discípulos, recuperaram o corpo de Tiago na Palestina e, seguindo a tradição da época de enterrar o apóstolo no local da pregação, transladaram o corpo para o local onde ele havia pregado, numa viagem de sete dias numa barca até ao local do Rio Ulla, em Padron, na Galiza, onde o depositaram para o descanso eterno. Tudo terminaria ai se não fosse a indicação divina, que certamente tinha outros planos para o apóstolo Tiago.

 

 

Campo de estrelas – Santiago de Compostela

 

Assim, em 813, o eremita Pelayo — que vivia na região de Solovo, no bosque de Libredon, onde 770 anos antes Teodoro e Atanásio haviam depositado o corpo do mestre — começou a ver sinais luminosos no céu, assemelhados a uma chuva de estrelas que caía sempre no mesmo lugar. Impressionado, relatou o ocorrido ao bispo diocesano Teodomiro, de Iria Flavia, antiga Padron. Este, diante da insistência do eremita, foi a Libredon, onde presenciou o fenómeno relatado por Pelayo. Procurando no ponto onde as luzes incidiam, encontraram o sepulcro de pedra onde repousava o corpo de Santiago. A descoberta chamou a atenção de religiosos e autoridades da região e no ano de 814, o rei das Astúrias, Afonso II o Casto, mandou erguer uma capela em homenagem ao Apóstolo naquele local, que passou a ser conhecido como Compostela, palavra formada pela expressão latina campus estellar (campo de estrelas). A notícia chegou ao Papa Leão III (795-816), que deu conhecimento ao mundo cristão no escrito Noscat fraternitas vestra: "o corpo do bem-aventurado Apóstolo Santiago foi trasladado inteiro para o território da Galiza”.

 

A união pela fé

 

Naquela ocasião, os cristãos da Península Ibérica travavam uma longa luta contra os invasores mouros, que se estendeu de 711 a 1492. Desunidos e divididos em reinos rivais, encontravam dificuldades para enfrentar o inimigo e tornavam-se presa fácil para os conquistadores, que iam vencendo, até com certa facilidade, os desarticulados reinos da região, aumentando paulatinamente seu domínio na região.

 

A descoberta do corpo do apóstolo na área do conflito foi altamente benéfica para o povo cristão da região, pois além de gerar uma grande curiosidade popular e aumentar o fluxo de fiéis à Península, iniciando um ciclo de peregrinação com o consequente fortalecimento do cristianismo na região, dotou as hostes cristãs de uma figura emblemática, motivo suficiente para unificá-las, tornando-as mais consistentes, mais fortes e, portanto menos vulneráveis diante dos árabes.

 

Fortalecimento do Cristianismo

 

A manifestação primeira e maior da importância da descoberta e anunciação do corpo do Apóstolo, já chamado de Santo pela população, ocorreu durante o desenrolar da famosa batalha de Clavijo, ocorrida nas cercanias de Logroño, em 844. Nesta batalha Ramiro I, rei da católica Astúrias, com um exército menor e menos preparado enfrentava as numerosas e treinadas tropas de Abderraman II, quarto emir de Córdoba, na região conhecida então como Espanha Muçulmana. Os cristãos estavam em clara desvantagem quando, segundo contam, o Apóstolo apareceu montado num cavalo branco ( o mesmo aconteceu em Garabandal, existem relatos de pessoas sobre este acontecimento que ocorreu a 25 de Julho em Garabandal), e conduziu o exército cristão a uma vitória esmagadora sobre os mouros. A partir desse feito, passou também a ser conhecido como Santiago “Matamoros”. O mito fortalecia-se e adquiria fama crescente. O movimento de peregrinação e de culto aos restos do Apóstolo estendeu-se por todo o Ocidente.

 

Com o aumento da peregrinação ao túmulo do santo, o rei das Astúrias Afonso III promoveu, no ano de 899, a ampliação e melhoria da capela erguida originariamente para abrigar os restos do Apóstolo, visando atender a procura crescente dos peregrinos. Uma prova da força que já adquiria o Santo e de que a mesma não se restringia mais somente a região, alcançando outras partes do mundo, foi o acontecido quando da invasão da região pelos muçulmanos comandados pelo capitão Almanzor, regente de Córdoba e líder dos mouros de Espanha, que venceu as forças cristãs, saqueou e destruiu a cidade e a capela, mas respeitou o sepulcro de Santiago, deixando-o intacto. Como a basílica precisava crescer para atender a demanda dos fiéis, em 1075, o Bispo Diego Pelaez, com o apoio de Afonso VI, rei de Leon e Castela, promoveu a construção da que seria a terceira basílica no local santo, de estilo românico.

 

Ano Santo Jacobeo

 

O Papa Calixto II, de origem francesa, instituiu temporalmente em 1122 o Ano Santo Jacobeo, e que foi formalizado com a sua ratificação pela Bula Regis Aeterni, publicada pelo Papa Alejandro III, em 1179 e que é a bula de concessão mais antiga da religião católica. Também conhecido como Ano Santo Compostelano, tem uma periodicidade variável de cinco, seis e 11 anos, sempre que a festa de Santiago, a 25 de Julho, cai num domingo e é o Jubileu mais frequente da Igreja Católica. Excepcionalmente foram considerados dois anos santos fora da tradição: em 1884, em louvor pela redescoberta do corpo do Apóstolo e em 1937, em plena Guerra Civil espanhola (1936-39). Outro atractivo do Ano Santo é a abertura daPuerta Santa”, na parte traseira da Catedral na Plaza de La Quintana.

Ainda mais importante é que os peregrinos em anos santos podiam receber a bula jubilar ou jubileo, um privilégio que data do século XII, inscrito na Bula Regis Aeterni. A graça do jubileo consiste, em essência, na indulgência plena dos pecados.

 

Do século XI ao XV

 

Entre os séculos XI e XV, o trânsito intenso de peregrinos transformou Compostela no mais importante centro político e económico do noroeste da Espanha.

Em 1139, o Caminho foi brindado com o Livro Codex Calistinus[14], parte integrante da obra Liber Sancti Jacobi e que ficou conhecido como o primeiro guia do Caminho, iniciando o processo de condução orientada dos peregrinos em sua peregrinação. Em 1188, a Catedral de Santiago de Compostela ganhou um incremento de real formosura com a construção do seu famoso Pórtico da Gloria, obra inspiradíssima do Maestro Mateo[15], que hoje é o acesso principal à catedral.

Contudo, as pestes (séc. XIV) e as guerras religiosas europeias tornaram a caminhada muito perigosa e diminuíram a procura pelo Caminho. Com o encerramento no século XVI da rota francesa como via de peregrinação e comércio, em virtude da guerra entre os reinos de Castela e de França, o Caminho entrou em declínio.

 

Do Século XVI ao XIX

 

Em 1588 com a cidade sitiada pelo corsário inglês Francis Drake e sob o risco da invasão iminente, o Arcebispo San Clemente retirou da Catedral e escondeu a arca com os restos mortais de Santiago para evitar que fosse profanada pelo invasor. A arca permaneceu em lugar ignorado por mais de 300 anos, sendo reencontrada pelo Cardeal Palay no final do século XIX, 1878, quando o culto a Santiago foi retomado com a redescoberta das relíquias e com a pacificação da região.

 

O início do século XIX foi terrível para a Espanha, que sofreu a invasão francesa e teve sua capital tomada em 1833. Mas o Caminho, com a redescoberta dos restos de Santiago e com uma política de reconstruções e reorganizações do território espanhol, retomava seu vigor. O século XX apresentou novos períodos sombrios para o país, sofrendo com duas guerras mundiais e de permeio com a sangrenta Guerra Civil (1936-1939) em solo espanhol. O Caminho se ressentiu, mas não se abateu diante desse horizonte caótico.

 

Do Século XX em diante

 

O Caminho tomou novo fôlego a partir do século XX. A multi-secular peregrinação a Compostela, pelo Caminho de Santiago, gerou desde o princípio uma prosperidade espiritual, cultural e económica. Fomentou a literatura, a música, a arte e a história e, em consequência, apareceram cidades e vilas, além de inúmeras igrejas, catedrais e hospitais, com o objectivo de apoiar e confortar os peregrinos. O Caminho sempre funcionou como catalisador de culturas, transmissor de ideias e promotor do encontro de povos e línguas, o que foi acentuado fortemente no século XX.