O testemunho de Joachim Bouflet

O testemunho de Joachim Bouflet

 

O depoimento a seguir, traduzido do francês por Helen Rozeluk, foi impresso com permissão do próprio.


Em Julho de 1968, eu tinha convidado quatro dos meus amigos - como eu, éramos estudantes da Universidade de Sorbonne (Paris, França) - para vir passar dez dias na casa da minha família na Alemanha (família da minha mãe é alemã). Tínhamos todos cerca de 20 anos, e tínhamos um movimento estudantil católico na universidade, nós muitas vezes perguntávamos a nós próprios sobre qual seria o nosso futuro.


Por alguns anos eu mantinha a esperança de entrar na Ordem dos Padres Carmelitas, enquanto uma das pessoas do nosso grupo, devido ao produto de um ambiente totalmente agnóstico, estava a hesitar na escolha de uma vida religiosa (algum tempo depois, ela juntou-se às Irmãs de Bethlehem).



 

Estes pontos indicam a atmosfera em que nos encontrávamos, falávamos muitas vezes da religião, e por muitas vezes deslocávamos para os arredores, para a região encantadora do Lago de Constança, onde para além do relaxamento do corpo, encontrávamos também o prazer de uma vida ritmicamente pontuada com a prática religiosa, recitando o Santo Ofício e fazendo meditação.


Um dos elementos do nosso grupo, Janine, foi severamente debilitada fisicamente. Um dia, no decurso de uma conversa, ela compartilhou connosco um desejo: que alguém fosse em seu nome ver o Padre Pio e pedir-lhe que rezasse por ela. Ela era incapaz de ir vê-lo, não tanto por causa da sua deficiência, mas porque a sua mãe, era uma não crente. Ofereci-me para ir no seu lugar.


 

 

No final de nossa estadia na Alemanha, eu decidi ir à boleia -, cortando toda a Áustria pois pensei que seria mais fácil. E assim, depois de passar algum tempo com a minha família, eu decidi ir lá em meados de Agosto.


O percurso provou ser bastante fácil desde o início isto porque um autocarro cheio de peregrinos com destino a São Damiano pegou-me e levou-me até lá (São Damiano). Eu estava familiarizado com o lugar, depois de ter estado lá antes, mas não me atraia muito. No entanto, aproveitei a peregrinação que se deslocava para lá, por volta do dia 15 de Agosto.


Providencialmente, em São Damiano acabei por conhecer uma outra aluna, Loulou, uma mulher extraordinária com cinquenta anos aproximadamente, uma freira ex-clausura, que estava a estudar russo. Quando eu lhe disse sobre a minha intenção de ir à boleia até San Giovanni Rotondo, ela declarou que também me ia acompanhar, ela afirmou que não me deixava andar sozinho nas estradas do sul da Itália (ouvir falar que se tratava de uma zona perigosa, com muitos ladrões e assassinos), e que ela também seria útil para mim, uma vez que ela falava fluentemente italiano, enquanto eu só conhecia algumas palavras.


Gostei muito dessa ideia e no dia 16 de Agosto decidimos partir. Três dias depois, para nossa alegria, embora totalmente esgotados, chegamos a San Giovanni Rotondo. Eu só tinha um pensamento – ser atendido pelo Padre Pio.


Uma vez lá, fiquei desiludido. Não foi tão fácil como eu imaginava. Para dizer a verdade, era mesmo impossível. O santo sacerdote, muito velho e frágil, já quase não recebia visitantes e a lista de espera para as poucas confissões que ainda fazia, estavam totalmente preenchidas.


Mas eu teria pelo menos a graça de assistir à sua missa e vê-lo com outras pessoas na sacristia. Quando isso aconteceu, eu enchi-me de alegria. Eu deixei uma pequena nota no porteiro do convento para que fosse entregue ao Padre Pio, explicando a razão da minha vinda. Eles garantiram-me que todos os pedidos eram entregues ao próprio.


Na tarde do dia 23 de Agosto, fui para a pequena igreja de Nossa Senhora das Graças. Estavam lá apenas duas ou três pessoas, outros estavam só de passagem. Um capuchinho jovem aproximou-se de mim pedindo-me algo em italiano. Eu não conseguia entendê-lo, mas pelos seus gestos compreendi que ele queria que eu o ajudasse a carregar uma estátua grande “papermache” São Luís, Rei da França.

Nota: Depois do encontro com o Padre Pio, este autor derramou em lágrimas e chorou de alegria.


Ele pegou na estátua pela cabeça enquanto eu tomei a base e passamos por uma porta lateral de um claustro. A uma curta distância, na sombra sob as arcadas, sentou-se numa poltrona o Padre Pio. Ele parecia estar cansado. Eu estava cheio de emoção por estar tão perto dele. Mas o jovem padre puxava-me e fomos para a nova igreja, onde colocamos a imagem do Santo ao lado do altar.


Enquanto colocava e arranjava o apoio da estátua com um pedaço de pano e colocava vasos de flores, o jovem capuchinho explicou-me lentamente, a fim de se fazer entender, que São Luís foi da Ordem Terceira Franciscana, que eles estavam a comemorar, uma vez que o seu dia de festa seria na noite do dia seguinte (vigília) e isso era para mim especificamente especial, pelo facto de um francês ter ajudado para esta causa. Eu supunha o que ele dizia, mais do que entender, pois o meu italiano era muito limitado.

 

Finalmente, perguntei-lhe como podia regressar para a pequena capela de Nossa Senhora das Graças. Com um simples gesto, indicou-me a porta que tinha acabado de usar e voltei para o claustro para fazer a viagem de retorno.

 

Estava tão perto de Padre Pio! Uma oportunidade como esta jamais voltaria a ter. Eu atravessei o jardim do claustro e caía aos seus pés. Ele ficou surpreso. Ao mesmo tempo, dois capuchinhos saíram a correr, gritando palavras ininteligíveis. O Padre Pio fez-lhes um sinal com a mão enluvada e eles ficaram em silêncio, mas ficaram por perto. Então ele olhou-me seriamente, mas estou certo de que havia compreensão e afecto e isso reflectia-se nos seus olhos. Ele colocou-me a mão na minha cabeça (eu estava ajoelhado em frente ao Padre Pio) e ele disse-me algumas palavras. Os dois monges retiraram-se para uma certa distância. Ouvi o Padre Pio, que manteve a mão sobre a minha cabeça. Eu compreendi perfeitamente o que ele me disse.

 

Confessei os meus pecados e ele respondeu-me, comentando o que eu tinha falado e, em seguida, foi-me dado uma experiência avassaladora do carisma que lhe era atribuído, e do seu conhecimento do coração. Senti uma paz profunda e uma angústia profunda. Eu não sei quanto tempo durou tudo isto.

Finalmente, ele disse-me: "Reze a Nossa Senhora. Consagre-se à Virgem do Carmo". "Sim, Padre, eu rezo a Nossa Senhora do Monte Carmelo. Aliás, eu gostaria de tornar-me um carmelita." Ele não fez comentários sobre isso, mas repetiu com insistência: "Consagre-se à Virgem do Carmelo, que apareceu em Garabandal"

.
   - "Então é verdade?", disse eu.


   - "Certo e vero!" ("Sim, é verdade!"), disse o Padre Pio.


Então ele disse-me duas ou três coisas pessoais. Quando estava a pedir a sua bênção antes de se levantar, ele concluiu: "E diz à Janine que está tudo bem e que estou a orar por ela." Eu tinha-me esquecido completamente sobre a principal razão da minha ida a San Giovanni Rotondo! Com a sua delicadeza sobrenatural o padre estava a lembrar-me. Que confusão!


Então eu recebi a sua bênção e ele levantou-se. Ele olhou-me sério e, em seguida, fechou os olhos. Os dois frades, que tinham ficado à distância, escoltaram-me até a igreja de Nossa Senhora das Graças. Eles pareciam zangados e ralharam um pouco comigo. Gostaria de saber se eles estavam a falar a sério ou não, mas para dizer a verdade, pouco me importava naquele momento.


Uma vez na capela, eu comecei a chorar. Eu chorei de alegria. Um pouco mais tarde a minha amiga Loulou chegou. Ela levou-me para fora e disse: "Então parece que tu fostes capaz de ver o Padre Pio!" Como minha surpresa, era óbvio, ela interrompeu, "Eu vejo que tu não estás acostumado a isso. Por aqui, toda a gente sabe tudo dentro de um quarto de hora." Não demorou muito para que eu descobrir por mim mesmo.


Até o final da tarde, eu tive que enfrentar os interrogatórios de numerosos curiosos peregrinos. Eu estava pouco à vontade, especialmente quando eu expressei a opinião de que talvez o Padre Pio tinha apenas um pouco de tempo para sofrer aqui em baixo, era uma impressão muito distinta que tive quando estava com ele.


Para muitos parecia ter pronunciado uma blasfémia, como se as pessoas estivessem convencidas de que o Santo Padre era imortal ou algo assim. Eu decidi então sair no dia seguinte e Loulou concordou. À noite eu escrevi as palavras de Padre Pio (em italiano) que eu lembrava-me exactamente.


Saí de San Giovanni Rotondo no dia 24 de Agosto, de 1968. O Padre Pio foi chamado por Nosso Senhor um mês depois do dia em que eu o tinha visto. Essa é a história do meu encontro com o Servo de Deus e do teor exacto das suas sugestões no que diz respeito aos acontecimentos de Garabandal.


________________________________________

 

 


Joachim Bouflet recebeu seu doutoramento de história, na Universidade de Paris (Sorbonne) em 1972. Depois de leccionar por 10 anos, ele entrou no campo da espiritualidade especializado, no estudo das pessoas estigmatizadas e aparições, e é autor de livros que lidam com esses assuntos. Durante vários anos, ele trabalhou com a Congregação para as Causas dos Santos em Roma, como consultor sobre as causas para as pessoas que levavam caminho para a sua beatificação. Recentemente, ele foi designado consultor para a causa da estigmatizada francesa, Marta Robin. Ele é da Ordem Terceira do Carmo.