A Divina Misericórdia

A Divina Misericórdia

Recentemente, quando faleceu a Irmã Lúcia, muita gente se impressionou com o facto de ela ter falecido num dia 13, o dia das aparições de Fátima. Depois soube-se que ela esperava ser chamada à presença de Deus num dia 13 ou num primeiro Sábado. Certamente a sua morte num dia 13 não foi uma coincidência, foi antes um sinal significativo. Também o Papa João Paulo II faleceu num dia muito significativo, embora menos evidente à primeira vista, mas em todo o caso um dia muito significativo e que não pode deixar de traduzir um sinal muito claro da acção de Deus: O Papa faleceu na vigília da Festa da Divina Misericórdia, aliás morreu já em plena celebração da Festa da Divina Misericórdia, que se celebra no II Domingo da Páscoa, festa que tem uma história muito recente e a que, confesso, nunca dei muita atenção.

 

O culto da Divina Misericórdia, teve o seu início nas revelações de Jesus a uma jovem religiosa polaca, a irmã Maria Faustina Kowalska, na década de trinta do passado século vinte. Relata a própria Irmã Faustina, que no dia 22 de Fevereiro de 1931, «à noite, quando me encontrava na minha cela, vi Jesus com uma túnica branca. A sua mão direita erguida para abençoar e a outra tangendo a veste junto ao peito. Do lado entreaberto da túnica emanavam dois grandes raios de luz, um de tom vermelho e outro pálido... Jesus disse-me: Pinta uma Imagem conforme a visão que te aparece, com a inscrição: “Jesus, eu confio em vós”. É Meu desejo que esta imagem seja venerada primeiramente na vossa capela e depois em todo o Mundo. Eu prometo que a alma que venerar esta Imagem não se perderá.» Posteriormente, Jesus explicou a Faustina o simbolismo dos raios da imagem nos seguintes termos:

«Os dois raios representam o Sangue e a Água: o raio pálido significa a água que justifica as almas; o raio vermelho significa o Sangue que é a vida das almas... Estes dois raios brotaram das entranhas da Minha Misericórdia, quando na cruz o Meu Coração agonizante foi aberto pela lança... Desejo que no primeiro Domingo a seguir à Páscoa se celebre a Festa da Misericórdia».

 

A irmã Faustina, que faleceu em 1938, apenas com 33 anos, escreveu ao seu confessor em 1935 a seguinte profecia: «Virá o tempo em que esta Obra, que Deus tanto me recomenda, parecerá como que completamente destruída e, depois disso, a acção divina manifestar-se-á com grande força, e há-de dar testemunho da sua autenticidade. Será um novo esplendor para a Igreja».
Esta previsão da religiosa, de quase desaparecimento da Mensagem que lhe foi confiada verificou-se efectivamente quando em 1959 a Santa Sé proibiu expressamente a promoção do culto da Divina Misericórdia segundo as inspirações e escritos de Faustina Kowalska. Tal proibição vigorou por 19 anos, até que em Abril de 1978, quase no final do pontificado de Paulo VI, a Santa Sé autorizou a divulgação dos escritos da religiosa polaca e do culto da Divina Misericórdia. Exactamente seis meses depois, o mundo era surpreendido com a eleição papal do polaco Karol Wojtyla, Arcebispo de Cracóvia, a cidade o­nde falecera a irmã Faustina quarenta anos antes!


Apenas dois anos depois da sua eleição, João Paulo II publicou em 30 de Novembro de 1980 uma Carta Encíclica sobre a Divina Misericórdia “Dives in Misericórdia” (Deus Rico em Misericórdia) o­nde apresenta a oração como “um grito de súplica à Misericórdia de Deus, perante as múltiplas formas de mal que pesam sobra a humanidade e a ameaçam”. No II Domingo da Páscoa de 1993 João Paulo II beatificou a Irmã Faustina dizendo na homilia: “Saúdo-te, Irmã Faustina. A partir de hoje a Igreja chama-te Bem-Aventurada... Precisamente tu, pobre e simples filha do povo polaco, foste escolhida por Cristo para recordar aos homens o grande mistério da Misericórdia Divina! É deveras maravilhoso o modo como a devoção a Jesus Misericordioso progride no mundo contemporâneo e conquista inúmeros corações humanos! Este é sem dúvida um sinal dos tempos, um sinal do nosso século XX. O balanço deste século que está a terminar apresenta, além das conquistas, que muitas vezes superam as das épocas precedentes, também uma profunda inquietação e receio acerca do futuro, o­nde, portanto, senão na Misericórdia Divina pode o mundo encontrar refúgio e luz de esperança? Os crentes intuem-no perfeitamente!”

 

Novamente no mesmo II Domingo da Páscoa, agora do ano jubilar 2000, o Papa canonizou Faustina Kowalska. Referindo-se à mensagem de que a nova Santa fora portadora João Paulo II explicou que “não é uma mensagem nova, mas pode-se considerar um dom de especial iluminação, que nos ajuda a reviver de maneira mais intensa o Evangelho da Páscoa” e pediu a Santa Faustina para nos obter “ a graça de perceber a profundidade da misericórdia divina. A tua mensagem de luz e de esperança se difunda no mundo inteiro, leve à conversão dos pecadores, amenize as rivalidades e os ódios, abra os homens e as nações à prática da fraternidade. Hoje, ao fixarmos contigo o olhar no rosto de Cristo ressuscitado, fazemos nossa a tua súplica de confiante abandono e dizemos com firme esperança: Jesus Cristo, confio em Ti!”. Ainda no ano jubilar, João Paulo II, correspondendo favoravelmente ao apelo da mensagem estabeleceu que o “II Domingo da Páscoa, de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de «Domingo da Divina Misericórdia», assim instituindo para a Igreja toda a Festa da Divina Misericórdia no Domingo da oitava da Páscoa, evidenciando desse modo a intima ligação entre o mistério pascal da Redenção e o mistério da Misericórdia de Deus.


Assim como o atentado sofrido na tarde de 13 de Maio de 1981, teve o condão de chamar a atenção do Papa para a mensagem de Fátima, também a circunstância de João Paulo II ter falecido na vigília do Domingo da Divina Misericórdia (depois aliás de o respectivo dia litúrgico se ter iniciado com a hora de Vésperas), festa por ele instituída há cinco anos, não pode deixar de constituir para todos nós um sinal muito claro de que será vontade de Deus que prestemos uma especial atenção à mensagem e ao culto da Divina Misericórdia. A Páscoa de João Paulo II justamente nesse dia, é como que uma consagração definitiva daquela festa. É como que a aposição de um selo divino a confirmar que afinal o Domingo da Divina Misericórdia e a mensagem que foi transmitida a Santa Faustina e de que João Paulo II foi um empenhado arauto, não se trata de uma simples piedade popular, ou de uma devoção particular do povo polaco, sendo antes um culto a estender a toda a Igreja e que radica na melhor teologia que se pode elaborar a partir do coração de Cristo trespassado pela lança, donde brotou água e sangue e donde nasceu a Igreja.

Ao morrer na Festa da Divina Misericórdia, João Paulo II prestou-nos ainda mais um último serviço e deu-nos a sua última catequese, a de que a festa e o culto da Divina Misericórdia são uma fonte inesgotável de bênçãos para a humanidade que não devemos desperdiçar. Cumpriu-se mais uma vez a profecia de Santa Faustina:

«A acção divina manifestar-se-á com grande força, e há-de dar testemunho da sua autenticidade. Será um novo esplendor para a Igreja». Por tudo isto e pela vida e fecundo serviço de João Paulo II à Igreja e a toda a humanidade damos «graças ao coração misericordioso do nosso Deus».

 

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