San Sebástian de Garabandal é uma pequena povoação situada numa prega das montanhas cantábricas - a imensa cordilheira que percorre o norte da Espanha, próxima ao mar Cantábrico, do qual toma o nome.

Em 1961, quando tudo começou, habitavam cerca de  300 habitantes, distribuídos por umas 80 casas de pedra.Havia duas escolas municipais, uma para meninos, outra para meninas,e davam às crianças algumas noções mais rudimentares, suficientes para o tipo de vida que teriam. Os meninos, uma vez crescidos, iam trabalhar no pastoreio do gado ou na lavoura, ou então nas minas de carvão. As meninas, na idade aproximada de 14 anos, quando terminavam o período escolar, iam servir de guias aos burricos que transportavam o feno, o estrume e as colheitas. Cada dia elas galgavam as altas montanhas, em caminhadas que lhes tomavam algumas horas, para levar a refeição aos pais e irmãos.

 

Quase totalmente isolada, o seu único canal de ligação com o resto do mundo era então uma trilha pedregosa e cheia de grandes curvas, que descia até Cosio, sete quilómetros de distância, sede da paróquia. Dali, seguindo-se em direçcão ao norte, podia-se alcançar Torrelavega, Bilbau e, finalmente, vencidos uns 90 quilómetros, chegava-se à cidade portuária de Santander, no Golfo de Gasconha, capital da província e residência do bispo diocesano.

Nesse ambiente agreste, as famílias viviam, e vivem ainda hoje do produto das fincas, as minúsculas lavouras cultivadas nas encostas, mas principalmente do pastoreio do gado. De manhã, é comum ver-se alguém da família sair de casa cedo, tangendo as suas vacas escuras e pacatas para as regiões mais altas, onde se encontram as áreas de pasto. Os que ficam, além das tarefas domésticas, dedicam-se à colheita do feno para a alimentação dos animais no inverno.

Era uma vida pobre e austera, fortemente marcada pelas estações, pelo sol e pela neve. Nenhum dos confortos que hoje se encontram na maioria dos agrupamentos humanos, ali se conhece. As casas não têm água canalizada, e o único aquecimento nos duros invernos é o fogão. Supermercados, lojas, cinema, televisão, telefone, automóvel, simplesmente não existem. Não há um único motor em toda a vila. Energia eléctrica, só por algumas horas da noite. Toda a comida, incluíndo o pão, vem de Cosio, em lombo de burro. Era assim a vida desta aldeia, no ano de 1961.

As origens de Garabandal

 

Para melhor pudermos entender a história de Garabandal, temos primeiro que recuar algumas centenas de anos atrás, quando se iniciou na região das Astúrias a reconquista cristã. Quero informar que Garabandal é uma aldeia vizinha desta região que foi provavelmente povoada por volta dessa altura da reconquista. Garabandal fica a de Covadonga e a alguns  quilometros do mosteiro de Liebana, mesmo ali ao lado.

Poucas ou quase nulas são as informações sobre o início da entrada do cristianismo na península Ibérica e em Garabandal. Sabe-se no entanto que o povo cantábrico era um povo pré-romano, tendo sofrido a romanização por meados do ano de 29 A.C.

 

Entre a história e a lenda, foi indicado a viagem do apóstolo Santiago, bem como a visita à Hispânia por parte do apóstolo São Paulo. Essa informação encontra-se indicada na sagrada Bíblia, na epístola aos romanos. Segundo Tertuliano (famoso escritor latino do século II d.c.), a entrada do Cristianismo extendeu-se ao norte peninsular com verdadeiro êxito, nomeadamente nas povoações da região da Cantábria e Astúrias, que tanto haviam resistido às investidas romanas. Pode-se assim afirmar com toda a certeza que já no século II D.C. havia algumas comunidades cristãs nestas regiões. Os primeiros mártires cristãos desta região foram o santo Emetério e Celedónio da região de Santander, perseguidos por terem abraçado a fé cristã, isto porque naquela altura os cristãos eram ainda considerados inimigos do império romano.

Entre o século V e século VIII, após a queda do império romano, a península ibérica foi invadida pelos povos germânicos (ano 409 a 711 d.c.), entre eles os suevos e os visigodos que predominavam em quase toda a península Ibérica, através da instauração de várias monarquias que se foram sucedendo ao longo dos tempos. Numerosas batalhas deram-se entre este dois povos, pois era ambas suas intenções governar toda a península Ibérica. Por diversas vezes os povos visigodos tiveram ajuda do império Romano, com objectivos puramente estratégicos e políticos. No entanto, na zona menos romanizada do noroeste da Hispânia, resistiam mais uma vez às investidas destes povos germânicos, os povos das Astúrias e da Cantábria, regiões onde se situa Garabandal.

 

Os povos visigodos acabaram por extender todo o seu domínio à península Ibérica, isto já no reinado do monarca visigodo Leovigildo. O filho de Leovigildo, Hermenegildo converteu-se mais tarde ao catolicismo, religião contrária ao da maioria dos visigodos, que praticava o arianismo. Alguns séculos mais tarde, Hermenegildo foi considerado mártir da igreja católica, patrono dos convertidos e acabou por ser canonizado mais tarde pelo Papa Sisto V. Hermenegildo foi morto e decapitado no Domingo de Páscoa pelo facto de ter afirmado a sua fé cristã, que era contrária à de seu Pai. O seu dia de Santo é comemorado a 13 de Abril. Após a morte de Leovigildo, o Rei visigodo Recaredo converte-se também ao Catolicismo noIII Concílio de Toledo, em589 D.C. , e marca assim o inicio de uma estreita aliança entre a monarquia visigoda e a Igreja católica ibérica, desenvolvida marcadamente ao longo do século VIII.

 

Após a conquista dos árabes no século VIII, grandes monarcas visigodos que reinavam nesse tempo, fugiram para a região das Astúrias, região essa que estava fora do alcance da conquista Muçulmana, entre eles o oficial Pelayo. Foi nesta região das Astúrias, em Covadonga, que se realizou a famosa e importante Batalha de Covadonga. Esta foi a primeira grande vitória das forças militares cristãs na  península Ibérica a seguir à invasão árabe em 711. Uma década depois destes acontecimentos, provavelmente no verão de722, a vitória de Covadonga assegurou a sobrevivência da soberania Cristã no Norte da Península Ibérica, sendo considerado por muitos como sendo o inicio da reconquista cristã.

Sete anos depois da invasão árabe sobre Hispânia, Pelayo das Astúrias, um nobre  descendente dos monarcas visigodos, conseguiu expulsar um governador provincial, Munuza, do distrito das Astúrias, no noroeste da Península. Conseguiu ainda segurar o território contra inúmeras investidas dos árabes. Depressa estabeleceu o Reino das Astúrias, que viria a transformar-se na região cristã de soberania contra a expansão islâmica. Pelayo, embora incapaz de conter os Muçulmanos em muitas situações, sobrevivia e dinamizava o movimento para a Reconquista cristã.

Para que isto fosse possível Pelayo distribuiu os seus homens, pondo-os a postos nos cumes dos morros com o objectivo de atacar e ferir o inimigo islâmico. Aos desprovidos de armas, muniu-os de alavancas e picaretas, para removerem as pedras e fazê-las cair sobre os assaltantes, enquanto ele, com quantos soldados pôde reunir, emboscou-se numa caverna ou gruta, chamada pelos nativos de “a caverna de Covadonga”, e ali esperou pacientemente pela chegada dos mouros, encomendando-se fervorosamente, a si e a seus restantes soldados, a Deus e à poderosa intercessão da Santíssima Virgem Maria.

Alkamar, após a retirada de Dom Pelayo de Cangas de Onis, pensou que o pânico tinha sido instalado entre os cristãos. A confiança de Alkamar na vitória quase certa contra os cristãos, fez com que ele entrasse de forma ousada na estreita garganta que dá acesso ao monte Auseba e à caverna de Covadonga. Iniciou-se assim aquele grande combate verdadeiramente épico, do qual se conservará a memória enquanto o mundo existir: os muçulmanos, numerosos e bem armados, os cristãos pouco numerosos, e grande parte deles sem outras armas senão as que a natureza punha à sua disposição naqueles abruptos lugares, mas cheios de confiança em Deus e na poderosa intercessão da Virgem Imaculada. Uma chuva de flechas anunciou aos cristãos o feroz ataque dos mouros, mas a surpresa destes não teve limites quando verificaram que, antes de as forças de Dom Pelayo responderem à acometida, muitos dos mouros, feridos pelas mesmas flechas lançadas contra os cristãos, caíam por terra dando gritos de dor.

As pedras e troncos de árvores lançados pelos cristãos das alturas do monte Auseba causaram também enormes danos ao exército dos mouros, dizimado ao mesmo tempo pelas flechas que os soldados de Pelayo atiravam sobre eles da gruta de Covadonga, as quais feriam sempre, pelo facto de os mouros se encontrarem encurralados na referida garganta, pela qual unicamente podiam atacar. Como consequência deste desastre, Alkamar morreu nesta batalha e no seu lugar ficou Suleiman, que tentou ganhar o sopé do monte Auseba,

Naquele preciso momento de agitação, desabou uma furiosa tempestade, que veio aumentar o espanto e o terror dos que iam já sendo derrotados. O som dos trovões, cujo eco era reflectido de serra em serra, a chuva que caía com grande abundância, as pedras e as árvores que de todos os lados caíam sobre os árabes, o solo que com a chuva se tornava movediça e escorregadia, fazendo-os resvalar e cair por aqueles declives, precipitando-os nas águas do rio Deva, onde morriam afogados, tudo contribuiu para se crer, com fundamento, que a mão do Senhor fazia até com que se desmoronassem os montes sobre os soldados de Mafoma. Horrível foi a mortandade no exército mouro, naquela memorável batalha, tendo quem afirmasse que não ficou um só mouro com vida! Um reduzido número de homens, dentro de uma caverna ou escondidos por entre as penhas, bastou para aniquilar, no breve espaço de algumas horas, um poderoso exército. É forçoso reconhecer, portanto, nesse conjunto de extraordinárias e portentosas circunstâncias, algo que parece exceder os limites do natural e humano. Em poucas ocasiões terá sido mais manifesta a protecção do céu, por isso não admira que os escritores de uma época de tanta fé atribuem essa milagrosa vitória à mediação da Virgem Maria, cuja imagem havia Pelayo levado consigo para a caverna. O resultado imediato da batalha de Covadonga foi a proclamação de Pelayo como Rei das Astúrias.

Por causa da grande intervenção milagrosa da Santíssima Virgem, o Rei Dom Afonso I, o católico, mandou erigir o mosteiro e a capela de Nossa Senhora de Covadonga. Deram-lhe este título por causa da caverna na qual lutaram Dom Pelayo e os seus guerreiros, onde foi colocada a imagem de Nossa Senhora que Dom Pelayo tinha levado para a memorável gruta, que anteriormente estava situada numa ermida de pequenas dimensões, perto da gruta.

A antiga ermida e a gruta ou caverna que Dom Pelayo usou para esperar o ataque dos mouros são os dois locais que mais atraem actualmente a atenção dos peregrinos.

 

«Cuando marchaban los musulmanes por el alto del que está sobre la ribera del rio que se llama Deva, junto a la villa que llaman Cosgaya, ocurrió por Sentencia de Dios que ese monte, revolvíendose desde sus fundamentos, lanzó al rio a los 63.000 hombres, y allí los sepultó a todos el tal monte, donde todavía ahora ese rio, cuando retorna a su cauce, muestra muchas señales evidentes de ellos.”

 

Após a conquista de Covadonga, foi constituído o reino asturiano com D. Pelayo a quem sucedeu Afonso I, filho do seu colaborador, o duque Pedro de Cantábria que casou com Ermesinda, filha do líder de Covadonga, D. Pelayo.

Este Rei de sangue cantábrico teve como responsabilidade a povoação e organização do território de Liebana com cristãos de vários lugares, com o objectivo de criar um vazio estratégico como fronteira frente aos islamistas situados no vale do Douro. Entre eles vieram monges que se instalaram em numerosos lugares, fundando vários mosteiros como o de San Martin de Turieno, que com o tempo se transformou em Santo Toríbio de Liébana, situado a poucos quilómetros de Garabandal. Entre essas novas povoações poderá ter surgido também a aldeia de Garabandal. Aliás, os traços de religiosidade secular, encontram-se gravados nas pedras de algumas casas desta aldeia.

 

 

Foi depois em meados do século VIII, e uma vez consolidada a reconquista nesta zona, que este mosteiro recebeu os restos mortais do bispo Toribio de Astorga e as relíquias do “ Lignum Crucis “ (restos da cruz de Cristo), que de acordo com a história, foi trazido por ele próprio de Jerusalém para ser depositado num lugar seguro como era o deste mosteiro e também devido ao prestígio que o mesmo tinha adquirido em todo o território cristão.

A religiosidade dos habitantes de Garabandal

 

Apesar de ser uma vila pobre, a religiosidade da sua população era notável. Diariamente, pelo anoitecer, uma senhora percorria as ruazinhas de pedra e terra, tocando uma sineta, lembrando a todos o dever de rezarem pelos falecidos. Pouco depois, vestidas de preto, lenço ou mantilha na cabeça, as mulheres dirigiam-se à Igreja, onde rezavam o terço e as ladainhas. Ou então a via-sacra. À frente, correndo e brincando, íam as crianças, e atrás, caminhando vagarosamente, alguns homens. Nos fins de semana, sempre que possível, o padre Valentim Marichalar, pároco de Cosio, enfrentava a cavalo a rampa de 600 metros para celebrar a missa e ouvir algumas confissões. (Menos afortunado era o médico que, na falta de um cavalo, subia a pé, atendendo aos raros chamados, pois aqueles montanheses, endurecidos pela rude vida que levavam, raramente adoeciam).

A religiosidade deste povo era assim reconhecida por um velho padre de Covadonga, que noutros tempos, na ausência do pároco, tinha subido várias vezes até a vila, para dirigir as orações. "Eram muito devotos - conta ele. Rezavam o terço diariamente. Juntavam-se na igreja à noite, e ninguém faltava, homens, mulheres e crianças. Quando me contaram que ali aparecia a Virgem, eu disse para mim mesmo: Se não fosse ali, onde haveria de ser?".

Eis, em rápidas pinceladas, o cenário onde, dentro em breve, começarão a desenrolar-se acontecimentos que ultrapassam a imaginação humana. Acontecimentos tão insólitos que, de repente, virão arrancar Garabandal da sua apagada vida de cada dia, para projectá-la nas páginas dos jornais do mundo inteiro e atraindo para lá o bulício e a inquietação de milhares de romeiros. O silêncio de suas pacatas ruelas, quebrado apenas pelos cincerros das vacas, ficará bem logo povoado pelos comentários de multidões de visitantes e de frases em francês, inglês, português, italiano, alemão...

E o resultado de tudo isto é a história impressionantemente doce que tentaremos reconstruir aqui, uma espécie de conto de fadas para o nosso tempo, o que levou o papa Paulo VI a exclamar: "Garabandal é a mais bela história da humanidade, depois do nascimento de Jesus".

 

 

 

 

 

 A APARIÇÃO DO ANJO

"Estávamos justamente a comer  as maçãs - conta ainda Conchita - quando ouvimos um ruído como de trovão, e todas a um tempo exclamamos:

"Parece que troveja."

 

Deve ter sido um trovejar um pouco estranho. Embora acostumadas a ouvir esses barulhos em pleno silêncio da natureza, naquele dia pareceu-lhes diferente. Tanto mais que, ao olharem na direçcão da Peña Sagra - um imponente maciço de 2.042 metros, que fecha por um lado o horizonte de Garabandal, e que muitas vezes aparece coroado de escuras e pesadas nuvens, de onde geralmente vêm as trovoadas - nada viram de especial. Que teria sido?

O ardente sol de verão já se inclinava sobre o horizonte, e todos os relógios da Espanha estavam prestes a dar as oito e meia.Nas quatro pequenas pecadoras, que acabavam de vir de uma aventura nada santa, aquele misterioso trovão soava como uma voz de Deus.

"Que desgraça!" - exclamou Conchita,  " Agora que comemos as maçãs roubadas, o demônio deve estar contente."

"E o nosso anjo da guarda, bem triste." - acrescentou outra.

Conchita teve assim uma ideia:

"Para consolar ao anjo, vamos atirar pedras no diabo."

E na sua ingenuidade de pequenas montanhesas, juntaram umas pedras e começaram a dispará-las com toda a força para a esquerda, onde achavam que devia estar o diabo.

 

A Visão do Anjo

 

 

Cansadas de atirar pedras "e com a consciência mais tranquila, resolvemos jogar cinco-marias". Essa tranquilidade, porém, não durou muito, diante de algo estranho e terrificante que logo as dominou. É a própria Conchita que relata em seu Diário, iniciado em setembro de 1962: "De repente apareceu-me uma figura muito bonita, envolta numa luminosidade que em nada me feria a vista". A sua cabeça caiu para trás, com os olhos fixos nas alturas. "Jacinta, Loli e Mari-Cruz, ao verem-me nesse estado, pensaram que me tinha dado um ataque, porque eu, de mãos juntas, repetia: 'Ai! Ai! Ai!' Quando elas, apavoradas, iam chamar minha mãe, aconteceu o mesmo com elas".

Levantando os olhos na direçcão indicada por Conchita, exclamaram juntas:

"O anjo!"

Houve um curto silêncio, mergulhadas todas na mesma contemplação, e o anjo desapareceu.

A visão durou meia hora sem dizer uma palavra. No entanto, era com esta presença silenciosa que começava a história "mais maravilhosa da humanidade, depois do nascimento de Jesus", citação do Papa Paulo VI.

O relato de Conchita vem completado pelo de João Álvarez Seco, comandante da guarda civil: "Umas meninas" - conta ele , "que também brincavam por perto, ao verem as quatro naquela estranha posição, puseram-se a jogar-lhes pedras; então o anjo  afastou-se uns 50 metros acima da mesma calleja. Uma vez ali, enquanto durava a sua posição estática de joelhos, quis passar por entre elas um morador da vila, que vinha do lado de cima, do monte, com um favo de mel na mão; vendo que não se arredavam para o deixar passar, e sem se aperceber do que estava acontecendo, ficou aborrecido com a 'pouca atenção daquelas meninas". Depois de se cruzar por elas, virou-se para trás e fitou-as mais atentamente. E grande foi a sua surpresa ao verificar que continuavam na mesma posição. Conta ele que, de noite, quase não conseguiu dormir, pensando naquilo tudo que lhe parecia tão estranho.

Na verdade o Anjo iria preparar os videntes para o encontro com a Virgem Maria, que iria passar-lhes as mensagens ao mundo, bem como profecias sobre o Final dos Tempos.

 

 

A aparição da Virgem Maria, 2 de Julho de 1961.

 

Conforme o calendário litúrgico de então, comemorava-se nesse dia a festa da visita de Maria à sua prima Isabel, quando – segundo o evangelho de Lucas – ela " dirigiu-se às pressas para as montanhas de Judá" (1,39). Eis que também agora ela põe-se a caminho das montanhas, desta vez para visitar  os seus filhos, num cume perdido da cordilheira cantábrica. E ali, naquele povoado de pastores irá estabelecer a sua morada por bem quatro anos; ali irá viver a sua "segunda vida nesta terra", como dirá o papa Paulo VI. Com efeito, serão mais de duas mil aparições e manifestações, para demonstrar sua presença real.

Apresenta-se sob o título do Carmelo, confirmando assim a devoção que consagra o mês de julho a Nossa Senhora do Carmo, cuja festa se comemora no dia 16.

Nesse Domingo, depois do terço, as meninas desceram em direçcão a Cosio para receber os irmãos de Conchita, que chegavam de viagem. Mas no meio do caminho tiveram de voltar, pois o público que afluía à vila reconheceu-as pelas fotografias e não as deixaram ir mais adiante.

Para sorte delas, vinha um Land Rover, um dos poucos carros em condições de enfrentar aquelas rampas, e  convidaram-nas a dar boleia. Encontraram as ruas abarrotadas de forasteiros, entre os quais, onze padres, vários médicos e um abade. "Eram aproximadamente seis da tarde quando iniciamos a caminhada em direçcão à calleja, seguidas por todos. Mal  começamos a rezar o terço, apareceu a Santa Virgem, ladeada por dois anjos. Um era São Miguel. O outro não conhecemos".

São Miguel. Ouvimos aqui, pela primeira vez, o nome do misterioso anjo que, ao longo dos 14 dias anteriores, conversava com as meninas. E hoje ele voltava escoltando a sua Rainha.

 

"Ambos vestiam da mesma maneira e pareciam gêmeos. Ao lado do anjo da direita, à altura da Virgem, vimos um olho de tamanho grande; parecia o olho da Deus".

"As pessoas" – conta ainda ," rodeavam-nos para abraçar e perguntavam o que ela tinha dito – ao menos algumas, porque a maioria não acreditava no que falávamos. As que acreditavam diziam que era como uma mãe que não vê as filhas já muito tempo. E então as filhas contam-lhe tudo... Em seguida  levaram-nos à sacristia, onde um padre chamado Francisco Odriozola nos interrogou individualmente".

 

E como era a Senhora de luz que lhes aparecia? – todos queriam saber. E elas tentavam explicar da maneira que podiam. O  pobre dicionário de rudes expressões, porém não era muito próprio para expressar coisas capazes de pôr em apuros até as inteligências mais iluminadas. Limitavam-se pois a traçar-lhe o retrato:

 

"Ela vem com um vestido branco, manto azul e uma coroa de pequenas estrelas douradas. Não se  vêem os pés. As mãos são afiladas, e no pulso direito usa um escapulário de cor marrom. O seu cabelo é comprido, castanho-escuro, ondulado e com um risco no meio. O rosto de forma oval, o nariz alongado e fino. A boca muito bonita, com lábios cheios. O rosto é de uma tonalidade levemente morena, porém mais clara que a do anjo. A sua voz é maravilhosa. Uma voz incomum, que não consigo descrever. Não há mulher que se pareça com a Virgem, nem na voz, nem em nada. Às vezes traz o Menino Jesus, bem bebezinho ainda, como um recém-nascido. Tem o rostinho redondo, da mesma cor que o da Mãe, uma boquinha pequena, cabelinho louro um tanto comprido e uma roupa em forma de túnica azul. A Virgem parece ter 18 anos".

OS FENÓMENOS OCORRIDOS EM GARABANDAL

 

As jovens sabiam quando as visões iriam acontecer, por uma série de três chamadas (luminações) cada uma mais forte do que a outra. Após a terceira chamada, elas corriam para o lugar recluso, onde se deram as primeiras visões: ali prostrando-se de joelhos nas rochas ásperas pontiagudas, entravam em transe extático sobrenatural. As suas cabeças derreavam para trás, as pupilas dos olhos dilatavam-se, as suas faces perladas de suor com impressionante expressão angélica. Mantinham-se, assim nesta posição durante algumas horas, sem entretanto demonstrarem sinais de esforço muscular e de fadiga. Assim ficavam insensíveis a picadelas de alfinetes, queimaduras com fósforos e contactos físicos. Mesmo quando, de noite, durante as visões, holofotes ofuscantes eram centrados sobre as faces das jovens, as suas pupilas permaneciam imóveis e dilatadas. Durante tais transes o peso das jovenzinhas ficava tão excessivo que dois homens adultos tinham dificuldade em levantar uma jovem de 12 anos. No entanto elas  levantavam-se, umas as outras, com a maior facilidade, para oferecerem um beijo a SSma. Virgem.

 

Quedas extácticas

Conforme as aparições iam continuando, um novo fenómeno começou a ocorrer : a Queda Extática. Apenas em êxtase, quer de joelhos ou em pé, as jovens caiam para trás, ficando esticadas no chão. Nunca se magoaram com isto, nem as suas vestes jamais ficaram imodestas, emaranhadas ou inconvenientes. Mantinham-se assim em êxtase, em posição horizontal e sem usarem das mãos para se recomporem, voltando depois à posição original, de joelhos ou de pé. Quando duas ou mais das jovens, em êxtase, caíam juntas, os seus movimentos eram perfeitamente sincronizados. Uma testemunha, Canon Júlio Porro Cardenoso, disse que era idêntico ao lançar de um jacto de luz dentro de um grande salão de conferência onde todas as luzes se apagassem simultaneamente. Quando as meninas jaziam ao chão, após uma queda extática, a posição dos seus corpos ressaltava algo como um sinal sobrenatural, e muitos espectadores descreveram como magnificas "esculturas".

 

Marchas  extàctcas 

Outra característica excepcional das aparições, sobrevinda quase ao mesmo tempo da queda extática, é a MARCHA EXTÁTICA. De cabeças decaídas para trás, de uma maneira característica e sem verem para onde iriam, as meninas marchavam de braços dados para diante e para trás, sem a menor dificuldade, sobre terreno acidentado e perigoso e algumas vezes com passos tâo rápidos que os espectadores não conseguiam acompanhá-las. Uma testemunha, a Srta. Ascencion de Luís, descreveu num relatório, com data de 18 de março de 1962. um desses "võos": "A partir da aldeia, subindo a rampa rochosa até o pequeno bosque de pinheiros que pendia na direcção da aldeia... A menina subia a rampa e descia novamente para trás numa velocidade incrível". Por vezes as jovens faziam lembrar aviões planando no ar, quando aparentemente sobrevoavam o terreno, de braços estendidos, tocando apenas o chão com as pontas dos pés.

 

Desde os primeiros dias das aparições, as meninas apresentavam à Virgem objectos religiosos para que Ela os beijasse, Istó foi sugerido por Nossa Senhora, e quando as pessoas disso tomaram conhecimento, numerosos terços, crucifixos, medalhas e alianças eram entregues às pequenas videntes. Tal era o acervo de objectos religiosos depositados sobre uma mesa para tal fim, que seria humanamente impossível para as jovens poderem devolvê-los aos próprios donos, sem equívocos. No entanto, quando em êxtase e guiadas por N. Senhora as meninas devolviam sempre as medalhas, alianças e outros numerosos objectos às pessoas certas. Muitos sacerdotes presenciaram os êxtases das meninas.

 

 

Beijo nos objectos religiosos

 

Quando as testemunhas ouviram dizer que Nossa Senhora queria beijar objectos religiosos, rosários, medalhas, crucifixos e anéis de casamento foram dados às meninas para que fossem dados a beijar a Nossa Senhora. Por muitas vezes, os objectos eram dados às meninas em grandes quantidades e duma forma que seria impossível distingui-los e entregá-los de forma correcta às pessoas a que pertenciam por direito. Ainda em êxtase e guiados por Nossa Senhora, as meninas nunca se enganavam na sua devolução aos respectivos donos.

 

Na última visita de Nossa Senhora, Ela disse a Conchita: “ Através do beijo que eu distribuí nestes objectos, o meu Filho realizará verdadeiros prodígios.” Esta promessa tem sido um facto real e continua a realizar inúmeras curas físicas, bem como conversões espirituais por todo o mundo.